visualizações de página

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Psicopedagogia: ensinantes e aprendentes no processo de aquisição do conhecimento

Psicopedagogia: ensinantes e aprendentes no processo de aquisição do conhecimento

Prof. João Beauclair

Arte-educador, Psicopedagogo, Mestre em Educação, Associado Titular da ABPp, Conselheiro eleito ABPp Gestão 2008/2010, professor em cursos de pós-graduação em Psicopedagogia.

Resumo:

Com novas expressões, designamos uma nova visão da relação entre professores e alunos, onde os espaços e tempos do aprender estão para além das escolas e são percebidos na complexidade e na totalidade da vida de cada um de nós, sujeitos inseridos na dinâmica relacional do viver e conviver com os outros. No campo da Formação de Profissionais em Educação, principalmente na formação inicial, é importante mostrar como esta dimensão proposta por Alicia Fernandéz é significativa e amplia nossos perspectivas educacionais. Este artigo é uma construção textual onde a experiência em salas de aula e as buscas de aprofundamentos teóricos se misturam, num fazer que, a cada nova vivência, tem sido imenso manancial de novas idéias e produções textuais.

Palavras-chave: Psicopedagogia, Aprendizagem, Educação, Metodologia, Autoria de pensamento.

Abstract:
With new expressions, we assign to a new vision of the relation between professors and pupils, where the spaces and times of learning are stop beyond the schools and are perceived in the complexity and the totality of the life of each one of us, inserted citizens in the relationary dynamics of the life and to coexist the others. In the field of the Formation of Professionals in Education, mainly in the initial formation, it is important to show as this dimension proposal for Alicia Fernandéz is significant and extends our educational perspectives. This article is a literal construction where the experience in classrooms and the searches of theoretical deepenings if mix, in one to make that, to each new experience, it has been immense source of new ideas and literal productions.

Key words: Psychopedagogy, Learning, Education, methodology.

 
I - Introdução:
Foi com Alicia Fernández que aprendi o significado das expressões ensinante e aprendente, termos que esta psicopedagoga argentina utiliza para designar uma nova visão da relação entre educadores e educandos, onde os espaços e tempos do aprender estão para além das escolas e são percebidos na complexidade e na totalidade da vida de cada um de nós, sujeitos inseridos na dinâmica relacional do viver e conviver com os outros.
Esta mudança de olhar, sobre as relações existentes nos atos humanos de ensinar e aprender, presentes no processo de aquisição do conhecimento, nos mostra a flexibilidade no exercício de cada um desses papéis visto que nesta dinâmica, em determinados momentos o sujeito é o ensinante e em outros, o aprendente.
No campo da Formação de Profissionais em Psicopedagogia, principalmente na formação inicial, área que tenho atuado como ensinante faz alguns anos, sempre busco mostrar como esta dimensão proposta por Alicia Fernández é significativa e amplia nossos referenciais educativos.
No ato de pesquisar, ler e reler, sempre me proponho a integrar estudos na área psicopedagógica por acreditar que neste campo de ação, atuação e produção teórica temos um caminho excelente e inovador para continuar a percorrer, aceitando o desafio permanente de avançar no campo da formação de psicopedagogos. [1]
A cada nova experiência, com aulas em cursos de Pós-Graduação em Educação e Psicopedagogia, tenho novos e importantes movimentos de autoria de pensamento, vivenciados numa metodologia construída a partir da práxis pedagógica e psicopedagógica de agir e fazer, buscando maior interatividade e fomento ao desenvolver de novos profissionais que abracem a Psicopedagogia como uma efetiva possibilidade profissional e de ressignificação de seus próprios modos de viver a dimensão do aprender em suas vidas. [2]
A busca por uma contínua fundamentação teórica tem me levado a construir diversas possibilidades de interlocução e o contato com diversas áreas relacionadas à aprendizagem que, cada vez mais, estimula meu desejo de organizar idéias e abordagens, com o intuito de compartilhar e contribuir para nosso pensar, nosso agir e nosso fazer em Educação e Psicopedagogia.
Sendo assim, desde meu inicial movimento nas sendas da Psicopedagogia, tenho produzido textos, artigos e ensaios publicados em sites brasileiros e europeus e participado de diversos eventos nacionais e internacionais como conferencista e palestrante, além de ter publicado três diferentes livros sobre a temática, com a organização de informações e leituras que se propõem a indicar caminhos de interlocução entre Educação e Psicopedagogia.
É na analise de questões relativas às próprias influências de nossas vivências em processos de ensinagem, seja como ensinantes ou como aprendentes, que se encontra o início para pensarmos na formação em Psicopedagogia, que se apresenta repleta de desafios em nosso tempo presente.
Com cada nova turma onde atuo, apresento inicialmente o campo da Psicopedagogia, para que seja possível desenhar um conhecimento geral, trabalhando principalmente com conceitos que considero principais para, posteriormente, apresentar minha própria proposta de trabalho, que visa fundamentalmente estimular e fomentar o desejo da autoria de pensamento, validando a trajetória de cada aprendente e mostrando principalmente, que competências e habilidades mínimas hoje, são requeridas para a atuação profissional psicopedagógica.
Este artigo, portanto, é um misto entre relato de experiência e busca de aprofundamento teórico, de um fazer que, a cada nova vivência, é manancial imenso de novas idéias e sistematizações. 

II - Em busca de fundamentação teórica:

Enquanto campo de conhecimento humano, a Psicopedagogia tem sido influenciada por diversas correntes teóricas e, em seu histórico, sempre esteve voltada para as questões relativas à aprendizagem. Nas décadas de 50 e 60 do século passado, em seu iniciar, a visão predominante era a médica.
Nesta visão, buscava-se enfocar problemas que ocorriam com os sujeitos em relação à aprendizagem a partir de uma abordagem neuropsicológica, já que a existência de problemas de aprendizagem apresentados por tais sujeitos gerava fracassos no espaço e no tempo da escola e, para que se chegasse a sua solução, deveria investigar qual era a dificuldade, qual era o problema.
Nos anos 60 e 70, a Psicopedagogia interessou-se pelos condicionamentos, saindo da abordagem focada apenas nas possíveis falhas e avaliando os desempenhos dos sujeitos em situação de aprendizagem numa perspectiva behaviorista.
Considerando os porquês das dificuldades e dos problemas de aprendizagem nos sujeitos, os estudos psicopedagógicos da década de oitenta mudam o enfoque e passam a ser consideradas as diferentes influências do meio social e cultural, abandonando a perspectiva de somente observar como estas dificuldades e problemas se manifestam.
 A visão que surge, então, é considerada como sendo uma visão social, levando em conta a relevância das influências do meio sócio-cultural para a aprendizagem. As idéias de Lev S.Vygotsky ganham espaço e fundamentam novas perspectivas para se compreender as dinâmicas presentes nos processos de aprendizagem, construindo um perfil profissional psicopedagógico baseado na interdisciplinaridade como metodologia e proposta de adoção de estratégias de intervenção e pesquisa.
É um momento bastante fecundo, onde novas teorizações e aportes significativos surgem como elementos fomentadores da práxis psicopedagógica que, a partir de então, ganha novas perspectivas de ação e novos espaços para sua inserção. Na década de 90, com os avanços em outros campos do saber humano, principalmente das Neurociências, da Biologia, da Sociologia e da Psicolingüística, entre outras revisões epistemológicas, a Psicopedagogia insere-se, definitivamente, como um a área de atuação e um campo do saber humano interdisciplinar.
Com isso, a Psicopedagogia avançou no sentido de objetivar, cada vez mais, o sujeito na construção de sua autonomia, vinculando o eu cognoscente as suas relações com a aprendizagem. Processos de investigação sobre a construção, integração e expansão deste sujeito aprendente se tornam cada vez mais presentes na pesquisa psicopedagógica e é muito rica a produção que podemos notar neste período.
O processo de aprendizagem passa a ser tema essencial para se compreender a construção do sujeito cognoscente, meta maior a ser alcançada para que ele se torne capaz de ser o próprio responsável pela construção do conhecimento.

III - O ser e o saber na construção do sujeito cognoscente.

Numa perspectiva tradicional, sabemos que a aprendizagem tem sido compreendida como pista de mão única, onde o professor possui a tarefa de repassar o saber para o aluno, percebido como um ser que precisa receber este saber, sem que nenhum outro processo seja válido.  Desconsiderando as relações sociais, nesta visão do processo de aprendizagem, somente o professor detém o saber e entre alunos e professores nenhuma outra espécie de vínculo pode haver a não ser esta: o professor sabe e o aluno não sabe, portanto, a tarefa educativa deve ser a de repassar o que o professor sabe para o aluno, que, supostamente, nada sabe e só vai aprender se receber o saber.
Na atualidade, muitos são os movimentos pedagógicos para mudar definitivamente este modo de fazer educação, visto que existem diversos trabalhos e diferentes práticas que propõem mudanças de olhar e percepção sobre a aprendizagem, redefinindo os agentes de todo o processo e seus respectivos papéis.
Da pista de mão única à de mão dupla: uma boa metáfora para pensarmos sobre o par conceitual ensinantes e aprendentes, em processos de aprendências e ensinagens[3].  Em muitos momentos, é preciso criar novos campos semânticos para mudarmos nossas percepções e nossos paradigmas: a construção de novas idéias remete-nos a necessidade de buscarmos novas expressões, para significar novas possibilidades, e como isso, trazer mudanças ao nosso pensar.
No caso especifico do par conceitual aqui colocado, o que considero essencial é relacionar aprendentes e ensinantes como caminhantes, numa mesma direção. A poética que tal modificação induz ao nosso pensar é que, aos estarmos juntos nos processos de aprender e ensinar, de lidar com informações, conhecimentos e saberes, é possível elaborarmos em parceria vínculos como passaporte para a aprendizagem, expressão belíssima que tomo emprestado de Dulce Consuelo Soares. [4]
Em "A inteligência aprisionada” [5], Alicia Fernández trabalha esta importante questão, quando elabora idéias para refletirmos sobre uma concepção de processo da aprendizagem onde o aprendente é considerado como um sujeito pensante, portador de sua inteligência e onde ao ensinante, através dos vínculos que conseguem firmar, é portador do conhecimento: nesta relação, aprendentes e ensinantes estabelecem uma relação entre fatores que, quando colocados em jogo, facilitam processos de aprendências, com gosto de denominar.
E que fatores são estes? Pelo que aprendi com Alicia é o organismo individual que o aprendente herdou, o seu corpo, construído de modo especular, e a sua inteligência, que é auto-construída nas interações e na arquitetura do desejo, que sempre é o desejo de outro.
Assim, é essencial o vínculo que se estabelece entre ensinantes e aprendentes, para compreendermos o como aprendemos. Sara Paín, referencial também importante para nossos estudos em Psicopedagogia, nos convoca a pensar que a aprendizagem é um importante processo que nos permite vivenciar a transmissão do conhecimento de um outro que sabe, para um aprendente que vai tornar-se sujeito e desenvolver sua subjetividade pelo fato de estar em processo de aprendizagem. [6]
Tal processo, entretanto, só acontece de modo qualitativo quando o ensinante consegue utilizar as instâncias do orgânico, do corpo, do intelecto e do desejo, integrando ao saber de cada aprendente conhecimentos aprendidos e que podem ser utilizados de modo significativo, transformando assim, o ensino em conhecimento.
Aprendentes, como sujeitos da aprendizagem, possuem saberes que os sustentam e tais saberes são frutos de seus próprios movimentos e buscas por novas aprendizagens e novos conhecimentos. É na articulação do organismo, do corpo, do desejo e da inteligência que o aprendente, como sujeito, se constitui. No movimento que faz ao interagir com a família e a escola, com as instituições, com os outros, enfim, o aprendente constrói a sua modalidade de aprendizagem, de modo constante e permanente.
Assim, o ser e o saber na construção do sujeito cognoscente, do sujeito aprendente, é tema essencial para buscarmos aprofundamentos teóricos e reflexivos, que nos conduzam a pensar nas complexas dinâmicas presentes no ato humano de ensinar e aprender.

IV - As complexas dinâmicas no ato humano de ensinar e aprender: idéias, processos e movimentos para pensar em Aprendizagem.

Diante do que até aqui expus, e com os referenciais admitidos, aprendizagem é processo onde o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo articulam-se em busca de determinado equilíbrio. Entretanto, a estrutura intelectual, de acordo com Jean Piaget precisa de equilíbrio para estruturar o conhecimento do real e, assim, sistematizá-lo por meios dos movimentos de assimilação e acomodação. [7]
Com o estudo deste importante autor, aprendemos que assimilação pode ser compreendida como movimentos dos processos de adaptação, através dos quais os elementos presentes no ambiente são alterados, com o intuito de serem incorporados à estrutura do organismo.
Já por acomodação, conforme aprendemos em Piaget, entendemos como sendo os movimentos que elaboram os processos de adaptação que alteram o organismo, em concordância com as características do objeto com o qual se relaciona.    
Assim, o organismo é sustentado e evolui através das relações que consegue estabelecer com o ambiente onde se insere e, deste modo ele se adapta, utilizando-se dos movimentos de assimilação e acomodação.
De acordo com Alicia Fernández, são estes movimentos de adaptação que configuram a arquitetura onde a atribuição simbólica de significações próprias, que o sujeito aprendente faz, em relação aos processos de aprendizagem onde interage. [8] Entretanto, para que todo este processo favoreça adaptações inteligentes, é necessário que os movimentos de acomodação e assimilação estejam em equilíbrio, ou seja, um não pode predominar em excesso sobre o outro. Com os estudos de Sara Paín é possível observar os processos de hipoassimilação /hiperacomodação, e de hipoacomodação/hiperassimilação, que constituem as diferentes modalidades presentes nos processos representativos que afetam a formação deste equilíbrio. [9]
Tais modalidades interferem tanto nas reações e respostas que o organismo produz em sua interação com o meio, quanto nos processos de aprendizagem, que se pressupõe normal quando esta é produzida numa relação onde os movimentos assimilativos e acomodativos apresentem-se em equilíbrio.
São as elaborações objetivantes e subjetivantes que farão com que o sujeito aprendente e desejante, de fato, aprenda, pois aprender é apropriar-se, e tal apropriação permite que o objeto do conhecimento, da aprendizagem, seja ordenando e classificado. No aspecto subjetivo, tal movimento irá gerar o reconhecimento e a apropriação do objeto, como resultado das vivências e das experiências que o aprendente obteve com sua relação e interação com este objeto. Vale a pena relembrar que todo este processo ocorre na articulação das instâncias do organismo, do corpo, da inteligência e do desejo que constituem o mover-se do sujeito aprendente, além dos vínculos que consegue estabelecer com os outros aprendentes e com os seus ensinantes.
Todas estas idéias favorecem o nosso pensar, agir e refletir para as questões relativas à aprendizagem em nosso tempo. Se o aprendente se faz sujeito desejante de modo gradativo, a construção do seu saber deve ser investigada e analisada. Cabe a todo ensinante ser ponto de referência, suporte colaborativo e atencioso, observando expectativas e necessidades e valorizando, cada vez mais, as construções e descobertas de seus aprendentes.

V – Considerações em aberto: aquisição do conhecimento, vivências e compartilhamentos.

Nos espaços e tempos educacionais, devemos buscar de modo permanente o aprender e o ensinar com prazer, proporcionando que esta palavra/sensação prazer esteja presente nas ações e estratégias de aprendizagem. A aprendizagem afeta a dinâmica individual de cada aprendente e tem forte interferência no articular das instâncias do organismo, do corpo, do desejo e da inteligência. Nossas ações como ensinantes devem considerar tais interferências, centrando-se na busca pelas transformações. A aprendizagem é possibilidade, mas sem o desejo não se transforma em oportunidade. São requeridas pela nossa contemporaneidade novas posturas e iniciativas, compreendendo o espaço e o tempo da escola como estímulos à construções de teias de significações, onde o aprendente possa transformar-se e libertar suas potencialidades, vivenciando ricas experiências com os objetos que interage. Cada ensinante pode construir em suas ações de ensinagem espaços de confiança, credibilidade e amorosidade, onde seja possível a alegria da autoria, a alegria do aprender e do ensinar, a alegria de viver enfim.
Nas experiências que tenho vivido, como mediador em cursos de pós-graduação em Educação e Psicopedagogia, a busca permanente tem sido esta: ao estarmos em grupo, almejarmos sentidos criativos e lúdicos ao nosso mover-se no mundo da construção do conhecimento e do compartilhamento solidário de experiências.
Proponho aqui um momento de reflexão, com o auxílio de um belo texto de Madalena Freire[10]

EU NÃO SOU VOCÊ
VOCÊ NÃO É EU

“Eu não sou você
Você não é eu
Mas sei muito de mim
Vivendo com você
E você, sabe muito de você vivendo comigo?
Eu não sou você
Você não é eu
Mas encontrei comigo e me vi
enquanto olhava você
Na sua, minha, insegurança
Na sua, minha, desconfiança,
Na sua, minha, competição,
Na sua, minha, birra infantil
Na sua, minha, omissão
Na sua, minha, firmeza
Na sua, minha, impaciência 
Na sua, minha, prepotência
Na sua, minha,fragilidade doce
Na sua, minha, mudez aterrorizada
E você se encontrou e se viu, enquanto
olhava para mim?
Eu não sou você
Você não é eu
Mas foi vivendo minha solidão
que conversei com você
E você conversou comigo na sua solidão ou fugiu dela, de mim, de você?
Eu não sou você
Você não é eu
Mas sou mais eu, quando consigo
lhe ver, porque você me reflete
No que eu ainda sou
No que já sou e
No quero vir a ser...
Eu não sou você
Você não é eu
Mas somos um grupo, enquanto
somos capazes de, diferencialmente,
eu ser eu, vivendo com você e
Você ser você, vivendo comigo.”

Referências:


 

[1] Neste sentido produzi os seguintes trabalhos: BEAUCLAIR, João. Psicopedagogia: trabalhando competências, criando habilidades. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2004, segunda edição, 2006. BEAUCLAIR, João. Para Entender Psicopedagogia: perspectivas atuais, desafios futuros. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2006. BEAUCLAIR, João. Incluir, um verbo/ação necessário à Inclusão: pressupostos psicopedagógicos, Pulso Editorial, São José dos Campos, 2007.
[2] Refiro-me a MOP - Metodologia de Oficinas Psicopedagógicas: vivências, aprendências e ensinagens significativas, uma metodologia ativa de aprendizagem onde o uso de dinâmicas de grupos, estudo de textos, discussão teórica, interações dialógicas entre aprendentes e ensinantes constituem-se como estratégias formativas em Educação e Psicopedagogia.  
[3]Explicando os termos aqui utilizados, entendo como aprendência a tomada de consciência de nossas possibilidades aprendentes criando processos de significação e constituindo o evoluir permanente de nossas subjetividades; já o termo ensinagem aqui é utilizado no sentido de que ensinar e aprender são processos resultantes da interação dialética entre aquele/a que ensina e aquele/a que aprende, ou seja, ensino e aprendizagem são os diferentes lados de uma mesma moeda, onde o ser cognoscente é ser também desejante, em movimento de autoria de pensamento.” Nota presente em BEAUCLAIR, João. Para Entender Psicopedagogia: perspectivas atuais, desafios futuros. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2006, página 53.
[4]SOARES, Dulce C. Os Vínculos como Passaporte da Aprendizagem: Um Encontro D’EUS. Rio de Janeiro: Editora Caravansarai, 2003.
[5] FERNANDÉZ, Alicia. A inteligência aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Porto Alegre: Editora Artes Médicas:  1990.
[6] Sobre as questões relativas à subjetividade, conferir: BEAUCLAIR, João. Subjetividade e Educação. Revista Ciência e Vida Psique, Edição Especial Psicopedagogia, ano I número 2. São Paulo: Editora Escala, 2007.
[7] Conferir as seguintes obras: PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1970. PIAGET, Jean. Inteligencia y afectividad. Buenos Aires: Aique 2001.
[8] FERNANDÉZ, Alicia. O saber em jogo: a psicopedagogia possibilitando autorias de pensamento. Porto Alegre: Editora ARTMED, 2001.
[9] Conferir as seguintes obras: PAÍN, Sara. Estructuras inconscientes del pensamiento. Buenos Aires: Nueva Visión, 1979. PAÍN, Sara. A função da ignorância. Porto Alegre: Artmed Editora, 1999. PAÍN, Sara. La estructura estética del pensamiento. Revista E.Psi.B.A. n. 8, 1988. PAÍN, Sara. Subjetividade e objetividade. Relação entre desejo e conhecimento.  São Paulo: CEVEC, 1996.
[10] FREIRE, Madalena. O que é um grupo? In: BORDINI, Jussara e GROSSI, Esther Pillar (orgs.). A paixão de aprender. Petrópolis, Editora Vozes, 2000.

Fonte consultada:

A Importância do Psicopedagogo na Instituição Escolar

A Importância do Psicopedagogo na Instituição  Escolar
 Maria Augusta Mota de Miranda
Especialista em Psicopedagogia Institucional, Professora de Língua Inglesa, formada no Campus IV, pela Universidade Estadual da Bahia.
E-mail: augusta-life@hotmail.com

Quando o processo de aprendizagem acontece de forma linear, o aluno adquire os seus conhecimentos com segurança e a sua construção se torna mais prazerosa. Sua auto-estima se eleva, e isto se reflete na apresentação de um ótimo rendimento em todas as disciplinas.
Todavia, se no seu trajeto ele se depara com inúmeras dificuldades, tais como: lentidão na execução de tarefas, queda de desempenho nas matérias, notas baixas, repetências, desinteresse pelos estudos, devemos então considerar o trabalho psicopedagógico como relevante, já que o aprendiz por si só não tem condições de fazê-lo e nem a instituição lhe dá suporte necessário.
Neste caso, o psicopedagogo é indispensável e deve realizar sua função de forma responsável, visando promover tanto no aluno, quanto na escola, mudanças significativas de aprendizagem.
Assim, frente a uma situação – problema , ele atuaria partindo de uma investigação sobre a vida escolar e familiar do estudante; através de diálogos com os pais, com os professores e também com o próprio aluno, tentando visualizar o problema existente no mesmo, orientando -o da melhor forma através de material pedagógico, entrevistas, provas projetivas ( desenhos) etc..., para que suas dificuldades de aprendizagem sejam sanadas e que ele tenha melhores resultados no futuro.
Buscando também a melhoria na relação aluno/ professor /funcionário, ele ajudaria, auxiliando assim estes, no surgimento de conflitos existentes; na interação com o outro; na elaboração dos planos de aula (na qual os professores poderiam fazê-los, de forma mais dinâmica, para que os alunos pudessem entender melhor as aulas); nos projetos da escola, que fossem mais voltados para a realidade da comunidade escolar.
  A instituição ( diretor, agentes administrativos, professores, secretários, coordenadores) não deve ver o psicopedagogo como uma ameaça, que está ali apenas para apontar os erros , mas como um suporte a mais, que poderá ajudar muito a escola.Contudo, para criar bases mais sólidas, será necessário que o ambiente escolar esteja aberto a estas mudanças, que se comprometam com este profissional coletivamente.O trabalho só terá sucesso, se todos cooperarem e tiverem o mesmo objetivo: de sanar as dificuldades de aprendizagem nos alunos; superar os conflitos já existentes e os ainda estão por vir.Conflitos estes, muito intensos e que aumentam ainda mais os obstáculos nas relações entre as pessoas.Interferindo em vários aspectos, principalmente no aspecto cognitivo criando uma série de demandas,  necessitando assim da intervenção psicopedagógica.
  O papel do psicopedagogo é de suma importância, porque ele vai agir como um “solucionador” para os problemas de conduta e aprendizagens, já que ele tem o domínio de técnicas especializadas, orientando professores, pais e demais envolvidos, naquilo que devem fazer em cada momento, para potencializar o tratamento.
  Quando se fala em “ intervenção “, logo a palavra nos remete a vários significados: Ato ou efeito de intervir;Intervir ( do Latim intervenire ): ser ou estar presente; Pôr-se de permeio; Interpor a sua autoridade, os seus bons ofícios.        
Interpor os seus bons ofícios: ação de quem tem algum preparo em determinada área e põe seus conhecimentos a disposição de quem deles necessita.Ação de quem acredita no que faz.
 Estar presente: não indica necessariamente uma ação, o que leva  a pensar em alguém disponível, que aguarda uma solicitação.Estar presente parece indicar uma posição, alguém a quem se pode recorrer e que está inteiro na situação.( Silvia ANCONA- LOPEZ 1995,p.20)
Com base nestas palavras, façamos uma reflexão sobre “ Intervenção Psicopedagógica”. O termo proveniente do verbo intervir, indica uma ação que determina antecipadamente um movimento. Alguém que estabelece um elo com outro alguém, e por estar preparado, produz alguma mudança significativa, que moverá outras ações, e que consequentemente terá novas intervenções.
 Voltado para o seu objeto de estudo, que é o processo de aprendizagem, a intervenção psicopedagógica se realizará através  destes elos ou ligações com metas bem definidas.Mas, como intervir, para promover o aprender ? A psicopedagogia ressalta que o sujeito deve ser sempre o autor da sua aprendizagem. E se isto não acontece, é porque existe uma série de demandas que precisam ser superadas, através da criação de mecanismos , que ajudem o aprendiz a mudar a sua realidade, bem como a transforma-lo em um sujeito melhor e mais capaz.
 Conclusão                                                 
 Saber lidar com o diferente; estruturar o sujeito, não é uma  tarefa fácil,mas o psicopedagogo deve ter sempre este compromisso social.E a partir das reflexões envolvidas no processo  de intervenção, contribuir para o esclarecimento destes déficit na aprendizagem, que não tem como causa apenas deficiências do aluno, mas que são conseqüência de problemas na instituição escolar, como também a família e outros membros da comunidade, que interferem no processo. É importante que tenhamos em mente, que o trabalho do psicopedagogo se dá numa situação de relação entre pessoas.O objetivo deste profissional é o de conduzir a criança ou adolescente, ou a instituição a reinserir-se numa escolaridade normal e saudável.Problemas de aprendizagem existem e sempre vão existir, mas só que agora há uma diferença, temos um olhar novo, clínico e mais amplo voltados para eles.Um olhar de um profissional que deve ser mais requisitado , e que não deixa de ser , de grande relevância no âmbito escolar.
 
Referências :
 
ANCONA-LOPEZ,M. Psicodiagnóstico : processo de intervenção. São Paulo : Cortez ,1995.
OLIVEIRA,Mari Ângela Calderari.Intervenção psicopedagógica na escola. Curitiba. IESDE,2004.
SÁ, Márcia Souto Maior Mourão. Fundamentos teóricos metodológicos da inclusão.Curitiba, IESDE, 2004.
SERRA, Dayse Carla Gênero.Teorias e práticas da psicopedagogia institucional.Curitiba , IESDE, 2004.

Fonte consultada:

http://www.psicopedagogiabrasil.com.br/artigos_maria_augusta_mota.htm
A EDUCAÇÃO  DE JOVENS E ADULTOS VISTA SOB UM OLHAR PSICOPEDAGÓGICO
Paula Silvana Cezar Pereira Koenig[1][1]
   Pedagoga e aluna do curso de  Pós-Graduação  em   Psicopedagogia    Clínica e Institucional Unilasalle Canoas- RS


RESUMO
Este trabalho apresenta um  breve histórico da Educação de Jovens e Adultos – EJA - no Brasil, bem como os fundamentos e metodologias desenvolvidas.  Apresenta entrevistas realizadas com uma turma de EJA e mostra a importância de se ter políticas públicas continuadas nesta área de ensino. Indica o porquê de jovens e adultos retornarem à escola em busca da alfabetização e da conclusão do ensino fundamental e médio,  bem como delimita o espaço do Psicopedagogo na área institucional.
Palavras-chave : Educação. Jovens. Adultos. EJA.
 
ABSTRACTThis paper presents a brief history of the Education of Young and Adult-EJA-in Brazil, as well as foundations and methodologies developed. Presents interviews with a group of EJA and shows the importance of public  policies have continued in this area of education. Indicates why the young people and adults returning to school in  search of   literacy   and    completion   of  elementary  and   high   school,   and   defines  the space in the area of institutional  psychopedagogists.Keywords: Education. Young. Adults. EJA. 


1 Uma retrospectiva histórica da  Educação de Jovens e Adultos  

Realizar um estudo sobre a Educação de Jovens e Adultos - EJA e compreender as particularidades desta modalidade de ensino, são objetivos deste trabalho. Entretanto, faz-se necessário também, compreender os aspectos históricos ligados à EJA , quais idéias estiveram relacionadas a este movimento e em que momento ele  iniciou.
O presente estudo começa no ano de 1945, quando o decreto n° 19.513, de 25 de agosto foi aprovado e fez com que a EJA se tornasse oficial em nosso país.  A partir  deste  ano, muitas campanhas e projetos foram lançados idealizando erradicar o analfabetismo.
Paulo Freire, no ano de 1963, integrou o grupo para a elaboração do Plano Nacional de Alfabetização junto ao Ministério da Educação, processo interrompido pelo Golpe Militar, que reduziu a alfabetização a apenas aprender a desenhar o nome.
Ainda assim,  a  partir do pensamento  pedagógico de Paulo Freire (1963), bem como sua proposta para a alfabetização de Jovens e Adultos, muitas foram as inspirações e principais idéias de alfabetização e educação popular já no início dos anos 60.
De acordo com Santos (2009)[2][2], em 1967, foi criado o Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização, este porém, além de não garantir  a continuidade dos estudos, ainda possuía um  material acrítico e padronizado que decretou o fracasso do programa.
Santos ainda descreve que em 1985, nasceu a Fundação Educar, que acompanhava e supervisionava as instituições e secretarias que recebiam recursos para executar seus programas, porém, em 1990 foi  extinta devido a  um período de omissão do governo federal em relação às políticas de alfabetização de jovens e adultos.
Contraditoriamente, a Constituição Federal de 1988 estendeu o direito à educação de jovens e adultos e foi neste ano  que a concepção de EJA passou a existir incluindo a todos, inclusive aos que em idade própria não obtiveram acesso ao ensino.  Apesar disto, foi só em  1996, a partir da lei de Diretrizes e Bases da Educação (lei n° 9394/96 ), que a nomenclatura de Ensino Supletivo deu lugar à EJA ( Educação de Jovens e Adultos).
A partir  do ano de 1996, surgiram três programas de origem federal destinados à EJA: o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), Plano Nacional de Formação do Trabalhador (PLANFOR) e o Alfabetização Solidária, que apesar de ter sido  criado com o objetivo de erradicar o analfabetismo,causava grande polêmica por sua característica assistencialista.
Já em 2003 no  governo atual, foi lançado o programa Brasil alfabetizado que dá ênfase ao voluntariado, apostando na mobilização da sociedade para resolver o problema do analfabetismo.  

1.1 Fundamentos e metodologias  da Educação de Jovens e Adultos 

Em meados da década de 40, surgiu nos Estados Unidos Laubach, um guia  de ensino de leitura para adultos. Os resultados deste guia foram tão positivos, que no  Brasil,  o Ministério de Educação inspirou-se nele e criou “ O Primeiro Guia de Leitura”.
Segundo esclarecimentos do MEC: 

O Guia de Leitura, baseava-se no ensino do método silábico. As lições partiam de palavras-chave selecionadas e organizadas segundo suas características fonéticas. A função dessas palavras era remeter aos padrões silábicos, estes sim o foco do estudo.
As sílabas deveriam ser memorizadas e remontadas para formar outras palavras. As primeiras lições também continham pequenas frases montadas com as mesmas sílabas. Nas lições finais, as frases compunham pequenos textos contendo orientações sobre preservação da saúde, técnicas simples de trabalho e mensagens de moral e civismo ( MEC, 1997, p.21). 

No final da  década de 50, havia muitas deficiências administrativas, financeiras e pedagógicas. A aprendizagem adquirida havia sido superficial e o método de ensino falho, visto que era inadequado para a população adulta e para as diferentes regiões do país. Foi  então, que uma nova visão de alfabetização de jovens e adultos se estabeleceu e um outro paradigma pedagógico se consolidou a partir de Paulo Freire.
Freire, em meados de 64, foi considerado um dos maiores pedagogos dos últimos tempos e suas idéias e práticas contribuíram muito para a educação popular. Os principais programas de alfabetização foram inspirados por ele , inclusive o Plano Nacional de Educação. Sob a ótica deste plano, o analfabeto começou a ser visto como efeito da situação de pobreza e não como causa. Estava assim,  instituído o “método Paulo Freire” : primeiramente o alfabetizador passaria pela fase preparatória, onde deveria realizar uma pesquisa e descobrir  a realidade do grupo com o qual iria trabalhar. Paralelamente, faria um levantamento das palavras  que os alunos utilizavam para expressar esta realidade. Estas palavras seriam o  eixo norteador de toda a alfabetização. O método também trabalhava com a auto-estima dos alfabetizandos, cartazes e slides deveriam dirigir uma discussão que valorizasse o aluno e o levasse a assumir-se como sujeito aprendente , capaz e responsável. Só então as palavras geradoras eram apresentadas e  discutidas sílaba por sílaba. Acreditava-se que com cerca de vinte palavras uma pessoa se alfabetizaria  em três meses. Logo estas palavras geradoras começariam a dar lugar a temas geradores, onde os alfabetizandos expandiriam seus conhecimentos e já se enganjariam em atividades comunitárias.

Segundo Barros e Alencar (2009)[3][3], no ano de  1967, o governo assumiu o MOBRAL que contava com um volume significativo de recursos. O MOBRAL consistia em reproduzir o método Paulo Freire, porém, sem todo aquele eixo problematizador. Desenvolvia ações diretas de alfabetização e pintava uma sociedade cor-de-rosa, incentivando os analfabetos a fazerem parte da mesma.
A Fundação Educar foi criada em 1985 e, diferentemente do Mobral, passou a fazer parte do Ministério da Educação. Exercia a supervisão e o acompanhamento junto  às instituições e secretarias que recebiam os recursos transferidos para execução de seus programas. O objetivo da EDUCAR era “promover a execução de programas de alfabetização e de educação básica não-formais, destinados aos que não tiveram acesso à escola ou dela foram excluídos prematuramente” (ZUNTI, 2000, p. 11).
Após alguns anos, o Governo Federal instituiu o  Pronera – Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária. Este programa, consiste em uma  política de Educação do Campo desenvolvida em áreas da Reforma Agrária, executada pelo governo brasileiro. O objetivo do Pronera  é fortalecer o mundo rural como território de vida em todas as suas dimensões: econômicas, sociais, ambientais, políticas, culturais e éticas.
De acordo com Zunti (2000), o Pronera nasceu em 1998 e promove a justiça social no campo por meio da democratização do acesso à educação na alfabetização e escolarização de jovens e adultos, na formação de educadores para as escolas de assentamentos/acampamentos e na formação técnico-profissional de nível médio e superior.
Já o Planfor surgiu para mobilizar e articular, gradualmente, toda a capacidade e competência de educação profissional disponível no país de modo que se alcance, a partir de 1999, oferta de educação profissional suficiente para qualificar ou requalificar, anualmente, pelo menos 20% da População Economicamente Ativa (cerca de 15 milhões de trabalhadores). Promove, assim, a constituição e articulação de uma ampla rede nacional de instituições públicas e privadas voltadas à Educação Profissional. 

1.2 Alfabetização Solidária ( AlfaSol)  X Programa Brasil Alfabetizado 

De acordo com Barros e Alencar (2009), A Alfabetização Solidária manifestou-se, inicialmente, como uma visão assistencialista.  Não concebia a função transformadora da educação, e sim, reproduzia  a assistência que recebia  de  governantes locais. Aos poucos, a prática de ensino foi sendo transformada e durante o segundo semestre de 2002 o Programa de Alfabetização Solidária – PAS -  passou a se chamar AlfaSol e ser uma organização Não Governamental – ONG. Nos dias atuais, este programa continua atuando na alfabetização de jovens e adultos.
No ano de 2003 foi criado o Programa Brasil Alfabetizado. Este Programa, assim como os demais, tem como proposta erradicar o analfabetismo e incluir socialmente pessoas analfabetas.
A Secretaria Extraordinária Nacional de Erradicação do Analfabetismo – SEEA é a encarregada de organizar e coordenar o programa que conta com a participação do governo, empresas, IES, ONGs e associações entre outras organizações de sociedade civil.
Ao analisarmos os programas  AlfaSol e  Brasil Alfabetizado, percebemos  que os dois foram criados com um único objetivo: erradicar o analfabetismo,  mas apesar disto, algumas  diferenças devem ser destacadas: 


programa
AlfaSol
Brasil Alfabetizado
 
Tempo do processo de alfabetização
6 meses
8 meses
Merenda escolar
Oferece merenda para
os alfabetizandos.
 
Não oferece merenda para
os alfabetizandos.
 
Coordenação do Programa
Contratado pela IES*.
Contratado pelo município, sem vínculo alfabetizador.
Apoio pedagógico
Contratado pela IES*.
Não há apoio
Pedagógico.
 

      *Instituições de Ensino Superior .
 
Quando nos deparamos com os dois programas oferecidos, percebemos que qualquer um deles poderá ser eficaz se acontecer de forma  transformadora, envolvendo a todos.  Qualquer programa que leve em consideração as necessidades e os anseios da população será sempre bem vindo.
De acordo com Freire:
A Educação popular se propõe a contribuir para a transformação social, tendo como objetivo a construção de uma nova sociedade que responda aos interesses e aspirações dos setores populares. Nessa medida coloca-se uma prática fundamentalmente transformadora e inovadora que busca incidir tanto a nível da sociedade em seu conjunto como a nível dos grupos e sujeitos envolvidos nela, vendo tanto nos educandos como nos educadores sujeito dessa transformação. (FREIRE,1996, p.18). 
Na visão de Freire (1996), educação popular é estimular o aluno a perguntar, a criticar, a criar, articulando este saber com o saber científico, mediado pelas experiências do mundo.
Freire idealizava uma sociedade mais justa, que iniciasse pela conscientização política, social e cultural do povo. Sendo assim, o professor que se dedica a ensinar nos projetos ALFASOL ou BRASIL ALFABETIZADO, tendo  plena consciência de seu papel, certamente contribuirá para uma educação realmente transformadora. 
 
1.3 Educação de Jovens e Adultos : a realidade constatada 

Atualmente, analisando as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos ( 2000), vemos que  o Governo Federal tem investido na Educação de Jovens e Adultos visando diminuir o número de cidadãos não alfabetizados e de analfabetos funcionais. De acordo com o Plano Nacional de Educação, a Educação de Jovens e Adultos – EJA  deve propor ações para reduzir o analfabetismo  tanto no que diz respeito ao contingente existente, quanto às futuras gerações. Como metas norteadoras, o Plano Nacional  visa:
* garantir ao jovem e ao adulto o acesso e a permanência ao ensino além das quatro primeiras séries do Ensino Fundamental;
* incentivar as instituições de educação superior a oferecerem cursos de extensão para prover as necessidades de educação continuada de jovens e adultos;
* assegurar que os sistemas de ensino, em regime de parceiras com os demais entes federativos, mantenham programas de formação de educadores de jovens e adultos, capacitados para atuar de acordo com o perfil dos educandos e habilitados para, no mínimo, o exercício do magistério nas séries iniciais do ensino fundamental, de forma a atender a demanda de órgãos públicos e privados no esforço de erradicação do analfabetismo.
Com objetivo de saber como acontece  a EJA na prática, procuramos escolas que oferecem a Educação de Jovens e Adultos. Conversando com alunos de uma escola pública, no município de Esteio-RS, percebemos  que o interesse pela EJA vem aumentando significativamente devido à  necessidade de mudança pessoal e profissional. Com base em entrevistas realizadas,percebemos que  os educandos mais jovens,  procuram as escolas que oferecem a EJA, visando concluir rapidamente seus estudos, pretendendo suprir defasagens quanto sua idade-série. Para os jovens adultos, a procura se dá devido a possibilidade  de um novo emprego ou até mesmo uma chance de promoção em seu emprego atual. Já para as pessoas da terceira idade, esta é uma oportunidade única de finalmente se alfabetizarem, visto que em idade própria isto lhes foi negado. Muitos precisavam cuidar de seus irmãos mais novos, outros, necessitavam trabalhar para aumentar os ganhos de uma  família numerosa e carente de bens materiais.
Geralmente, quando um jovem ou adulto procura uma escola que ofereça a EJA, está em busca de possibilidades, quer transformar sua vida, desejoso de  conhecimentos, necessita mudanças e crescimento. As expectativas que levam estas pessoas a saírem de seus lares são  muitas e a escola, por sua vez, deve estar preparada e comprometida com os interesses e condições reais de vida dos educandos. Freire (1996) já dizia que a escola deve proporcionar uma transformação capaz de modificar seres humanos, desta forma, eles transformarão  a sociedade em que vivem.
O professor nada mais é que um mediador no processo ensino-aprendizagem e aprende junto com seu aluno, pois a educação não será eficaz  se não for assim. Muitas vezes, percebemos alguns professores que buscam dar o melhor de si, mas são barrados pelo despreparo. São profissionais presos à falta de tempo e de possibilidades de se atualizarem, pois para sobreviverem necessitam trabalhar sessenta horas semanais, sobrando pouco ou nenhum tempo para pesquisarem  e prepararem suas  aulas com  qualidade. Zagury (2006), apresenta uma análise destes problemas em seu livro “O professor refém”, onde faz mapeamento das causas do fracasso da educação no país. Analisa o porquê do ensino brasileiro estar em decadência.  É uma obra importante que traz à luz as angústias e impossibilidades de todos os professores que sentem-se desiludidos com a educação no Brasil.   
Quando falamos  de Educação de Jovens e Adultos, percebemos uma grande falha neste processo pois ainda há muito que se percorrer neste sentido. O preparo de um professor que trabalha com EJA deve ser diferenciado. A metodologia deve ser adaptada e seus projetos pedagógicos devem incluir as expectativas e a realidade dos alunos. Trata-se de um trabalho voltado às necessidades de trabalhadores (em sua maioria), marcados por experiências de vida que não devem ser negligenciadas.
Precisamos saber o que ensinar e a quem estamos ensinando. Conhecer o aluno, sua realidade, muitas vezes sofrida, faz com que a educação tome novos rumos e se defina prática e objetiva.
Novos projetos, novas políticas devem ser pensadas e adaptadas, trazendo o conteúdo escolar para a realidade do aluno e não vice-versa.
Fernando Haddad, atual Ministro da Educação no Brasil, em entrevista concedida ao portal do MEC ( 2008), afirma “Tenho hoje a convicção de que o Brasil conseguirá, até 2015, reduzir a taxa de analfabetismo pelo menos à metade”.
Para que isto ocorra de forma eficaz, faz-se necessário que a abordagem da temática proposta instigue no educando a vontade de seguir em frente, buscando conhecimento e desenvolvendo habilidades.                                      
O desenvolvimento cognitivo deve ser objetivado, sendo na verdade a principal meta do processo em questão. 
Precisamos, além de incentivar a Educação de Jovens e Adultos, investir em nossos professores. Proporcionar-lhes um salário digno, dar condições para participarem de cursos de aperfeiçoamento, enfim, oferecer-lhes melhores condições  para desempenharem esta tarefa tão desafiadora que é o ato de ensinar.
De acordo com Gadotti ( 2002), “Os programas de  educação de jovens e adultos   estarão a meio caminho do fracasso se não levarem em consideração a transformação real das condições de vida   do aluno-trabalhador”.
É de fundamental  importância,  que o professor conheça a realidade de seu aluno, saiba as aspirações e as necessidades  que os levam muitas vezes, já em idade avançada,  a retornar  à escola.
No decorrer deste  trabalho, percebemos várias vezes a interrupção nos programas de ensino, extintos por questões de fundo político. Muitos priorizavam a alfabetização e pareciam de fato quererem erradicar o analfabetismo, porém, o que podemos analisar ao longo de todos estes anos  é que tudo o que fizeram em prol da educação ainda foi pouco.
Situações como estas nos deixam perplexos e nos fazem refletir até quando pessoas que (em idade-série apropriada) não tiveram acesso à escola, ficarão às margens desta sociedade. Até quando os governos lançarão mão de projetos   a fim de beneficiarem apenas a si próprios?
 Alfabetizar  faz-se necessário, porém antes, mais necessário ainda  é  formar cidadãos de caráter que não sejam meros expectadores mas sim, atuantes e  cientes de seu papel na sociedade . 

1.4 Psicopedagogia Institucional : contribuições para a Educação de Jovens e Adultos 
 
No âmbito escolar, a Psicopedagogia Institucional  tem sido vista  como ação preventiva, fortalecedora de identidades e   transformadora de  realidades. Cria estratégias de ensino levando em consideração as diferentes formas de se adquirir o conhecimento.
A Psicopedagogia Institucional analisa  a instituição escolar , delimita as dificuldades educacionais encontradas e planeja de forma  reflexiva uma abordagem  que contribua para o sucesso escolar.
Desta forma, a Psicopedagogia também centra seu olhar na Educação de Jovens e Adultos.   Neste enfoque, procura estabelecer relações nas quais o principal objetivo é resgatar o prazer, não somente de aprender, mas também de ensinar. Sendo assim, reflete sobre as relações estabelecidas com o conhecimento e as diferentes formas de se adquirir este conhecimento.
O Psicopedagogo na EJA visa reforçar o estímulo que muitos jovens e adultos necessitam para prosseguirem seus estudos. Torna viável o sonho  de muitos em alfabetizarem-se, pois auxilia na criação de projetos motivadores da prática educativa.
Toda ação psicopedagógica deve ser pautada na prevenção do fracasso escolar e das dificuldades que envolvem tanto ensinantes como aprendentes.
De acordo com Escott:
O fracasso escolar está alicerçado basicamente, sobre duas dimensões que se influenciam numa relação dialética: a individual, que diz respeito ao aluno e suas vivências, pertencentes a uma estrutura familiar, e outra externa, que corresponde à escola e aos seus aspectos culturais, ideológicos e sociais da aprendizagem.   (Escott, 2004, p.37) 
Desta forma, torna-se fundamental  o papel do Psicopedagogo no âmbito escolar: prevenir os entraves que permeiam o  fracasso e quando este já ocorrido, desenvolver subsídios motivadores a fim de superá-los. 
O fazer psicopedagógico, tanto na EJA, quanto nas demais modalidades de ensino, faz-se essencial para que se possa compreender a aquisição da  aprendizagem do sujeito e como possibilitar a construção de novos saberes.

REFERÊNCIAS

BARROS, Katharyna e ALENCAR, Ana Paula. Mídia-Educação para adultos: uma questão de interação social. Disponível em : <http://www.mvirtual.com.br/ midiaedu/monografias/alencar_barros.pdf.> Acesso em 14 out. 2009. 
BRASIL. Parecer n. 11 de 10 de maio de 2000. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Relator: Carlos Roberto Jamil Cury. Brasília.
_______. Congresso Nacional. Constituição Federal de 2000.
_______. Congresso Nacional. Lei Federal nº 9.394. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 20 de dezembro de 1996.
ESCOTT, Clarice Monteiro. Interfaces entre a psicopedagogia clínica e institucional: um olhar e uma escuta na ação preventiva das dificuldades de aprendizagem. Novo Hamburgo: Feevale, 2004. 
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários a prática Educativa. São Paulo; Paz e Terra, 1996. 
FREIRE, Paulo.Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1975. 
GADOTTI, Moacyr. Prefácio ao livro: 40 horas, 40 anos depois. Ensinar e aprender com Paulo Freire. De Nicéia Lemos Pelandré. São Paulo, Editora: Cortez, 2002. 
MEC, Educação de jovens e adultos: proposta curricular para o 1º segmento do ensino fundamental. São Paulo:Brasília, 1997. 
NOFFS, Neide de Aquino. Psicopedagogo na rede de ensino: a trajetória institucional de autores-atores. São Paulo: Elevação, 2003. 
SANTOS, Ivonete Maciel Sacramento dos . A Educação de Jovens e Adultos no Brasil. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/4105/1/a-educacao-de-jovens-e-adultos-no-brasil/pagina1.html. Acesso em 15 nov. 2009. 
ZAGURY, Tânia. O professor refém: para pais e professores entenderem por que fracassa a educação no Brasil. 5ª edição - Rio de Janeiro: Record,2006. 
ZUNTI, Maria Lúcia Grossi Corrêa. A Educação de Jovens e Adultos promovida pelo MOBRAL e a Fundação Educar no Espírito Santo, de 1970 a 1990: uma análise dos caminhos percorridos entre o legal e o real. Vitória: 2000. 
Pesquisas realizadas no período de 15/04/09 a 05/05/09, na Escola Edwiges Fogaça – Esteio- RS. 

[4][1] Pedagoga e aluna do curso de  Pós-Graduação  em   Psicopedagogia    Clínica e Institucional Unilasalle Canoas - RS